Ele está no meio de nós - Nona Parte


No dia seguinte, bem cedo, Padre Manfred acordou-se bem cedo, as cinco horas da manhã. Fez seu ritual de orações pela manha. De joelhos em seu quarto, passou praticamente uma hora em oração. O Padre se sentia ansioso ultimamente, demasiadamente preocupado. O silêncio da Igreja e da manha que ainda se iluminava não lhe traziam a paz mas algum sentimento interior de inquietação, mas ficou em oração, com o rosário nas mãos.

Do outro lado, o menino acordou e viu um clarão iluminando o quarto, era uma luz muito intensa, ele olhava por em meio a penumbra, mas a luz era muito forte que não permitia que ele abrisse os olhos completamente e enxergasse. 
Ele se levantou cambaleando, coçando os olhos, esfregando a cabeça, e ele sentia que a luz o atraia. Em pouco tempo, ele começou a perceber bem a presença de outros seres que ele imaginava ser pessoas. Tudo o que ele podia ver era uma multidão de seres iluminados que se reunião em louvor e adoração, no centro de todas essas pessoas ou seres estava o Padre, de joelhos, rezando. 
Ele não se questionou, não disse uma palavra, se juntou a todos aqueles e passaram todos eles orando e louvando a Deus por quanto tempo se foi.

Ao fim das orações o Padre mais uma vez se assustou com a presença do menino, de joelhos próximo a ele, sem que ele percebesse que ali estava o garoto.

- Menino, você tem que parar de me assustar deste jeito. - Disse o Padre. 
O menino apenas riu.

- Vamos comer alguma coisa? - Perguntou o menino sem pensar no comentário do Padre.

- Vamos... Vou ter que encher a dispensa, se você for permanecer aqui. - Falou o Padre com voz amigável.

Durante a preparação do café, um silencio se fez entre eles, o Padre olhava ao garoto e ele parecia estar em oração. O Padre se perguntava o que será que ele fazia. 
Na pequena janela da cozinha, a luz do sol aparecia tímida como se o sol estivesse apenas colocando a ponta da cabeça para fora como uma criança que brinca de se esconder. Aos poucos a presença do sol aquecia e iluminava e o garoto contemplava toda aquela maravilhava do dia que estava surgindo.

O silencio foi rompido quando o garoto perguntou:

- Padre, onde o senhor vai? - Perguntou o garoto.

- Preciso ir até a Diocese conversar com o Padre responsável para informar sobre seu caso, e depois vou até uma amiga para uma pequena consulta com ela. - Respondeu o Padre muito objetivo.

- Isso é por minha culpa Padre? - continuou o garoto.

- Na verdade não. Para te explicar, quando um caso como o seu acontece, preciso comunicar com urgência ao Padre responsável para que não surjam fofocas ou informações falsas, eu esperava que pudesse encontrar seus pais nesses dias que se passaram e ainda não consegui qualquer informação sobre eles, agora preciso formalizar o ocorrido e ver o que pode ser feito por você. - Explicou o Padre para melhor esclarecimento do menino.

- Entendi, eu não vou poder ficar aqui? - Continuou perguntando. 

- Isso eu não posso decidir, mas como vê, não temos muito espaço aqui neste pequeno lugar, sendo assim, precisamos de alguma ajuda especial. Por isso vou falar ao Padre. - respondeu.

- Que coisa mais complicada. - Comentou o menino. - Eu não gostaria de ficar na casa dos seus amigos. Tenho muito medo de sair daqui. 

- Já te disse que não tem porque temer, você estará sempre protegido. - Afirmou o Padre buscando oferecer algum consolo, mas ele ainda mantinha guardado em seus pensamentos as cenas do garoto morrendo de medo dos monstros na janela e depois, todo o trabalho que ele deu para entrar no carro.

Neste meio tempo, o café estava pronto e ambos se serviram e comeram em silencio. Não sem antes fazer suas orações antes do café. 

Ao sair, novo problema com o garoto para entrar no carro, ele continuava amedrontado com os seres que ele vivia imaginando e que segundo ele viviam o perseguindo. Foi muito pior quando chegou a casa de Dona Maria Flores, uma boa senhora que ajudava na Igreja sempre que ele precisava. O garoto se recusava a ir com ela, não queria passar na porta. Mas com um grande esforço e ajuda da boa Senhora ele entrou na casa. Fazendo o sinal da cruz e igualmente assustado.

A mulher olhou para o Padre de forma interrogativa como questionando o comportamento do garoto. O Padre com os olhos sinalizou que ela tivesse paciência pois o garoto era um pouco problemático. Ela sorriu em assentindo e compreendendo. 

Na Diocese, o Padre Manfred explicou toda a situação a Padre Paulo, que ouviu tudo detalhadamente e com expressão praticamente imutável em um silencio profundo não disse sequer uma palavra.

Padre Manfred ficava meio nervoso sempre que precisava falar a Padre Paulo, ele era um Sacerdote como os antigos, severo, muito sério, que não aceitava o menor deslize e sempre buscava e exigia de todos uma postura séria e correta. Ao ouvir todo o relato, ficou em um silencio sepulcral com seu rosário negro na mão, contrastando com o branco de seus cabelos e o azul dos olhos gelados. Obviamente, não seria ali que Padre Manfred encontraria suporte ou ajuda, mas fazia o que estava em suas obrigações informar da maneira mais clara e reta possível.

Ao fim do relato, Padre Paulo perguntou:

- Você conseguiu roupas e mantimentos para alimentar ao garoto? - Falou em tom gelado. 

- Sim, alguns paroquianos haviam feito doações para os pobres, julguei que o garoto se enquadra nesta categoria então vi o que servia para ele e deixei com ele. - Explicou o Padre quase pedindo perdão.

- Muito bem. Não vejo problema nisso. O garoto permanecerá aos seus cuidados até que o caso se resolva. - Informou o Padre sem maiores explicações. - Deixe que eu resolverei as questões junto a Diocese. - Tem mais alguma coisa que gostaria de partilhar? 

- Não. - Informou o Padre de forma direta.

- Sendo assim, pode voltar aos seus afazeres. E que Deus o abençoe em seu ministério. - Fazendo o sinal da Cruz sobre Padre Manfred ele o dispensou.

Padre Manfred saiu dali com um gosto amargo na boca e a sensação de que levou um soco em cima do estomago. Teve uma leve tontura com as palavras do Padre e com sua frieza, estava se sentindo muito cansado, talvez fosse o estresse da conversa. Sempre ficava muito nervoso toda vez que tinha que conversar com o Padre por isso evitava qualquer possibilidade de conversa com ele. 

Assim que Padre Manfred deixou seu gabinete o Padre Paulo pegou o telefone, discou alguns números que sabia de cor e disse:

- Sou eu, Padre Paulo. Bom-dia. Sim, ele acabou de sair daqui. - Ficou em silencio ouvindo os comentários do outro lado. - Sabemos que não temos o que fazer. Solicitarei a eles que prossigam com a investigação. Não há muito o que possamos fazer agora. - Mais um minuto em silencio ao telefone. - Façamos assim então. Bom-dia.

Ao desligar o telefone, Padre Paulo coçou a cabeça e alisou os fartos cabelos brancos sobre ela e disse baixinho para si mesmo: - Que Deus nos proteja.

Padre Manfred tinha a intensão de ir ao consultório de uma amiga dele para conversar pessoalmente sobre este assunto. Ao chegar ao local percebeu que estava tudo fechado, bateu na porta, chamou, tocou a campainha mas ninguém respondeu.

Sem saída, pegou seu velho carro e voltou rapidamente para sua Paróquia. Uma nuvem negra de chuva estava sob o céu anunciando que mais tarde cairia uma pesada chuva, por isso buscou ir o mais rápido possível.

Ao chegar na pequena Igreja ele encontrou a porta da Igreja aberta, ao entrar, encontrou a familia de Dona Maria dentro da Igreja, todos ajoelhados rezando.
Achou estranho aquela "súbita conversão".
Ao notarem sua presença, dona Maria se levantou rapidamente e veio a seu encontro enquanto os demais continuavam e oração.

- O que aconteceu? - Perguntou o Padre.
- Padre, que bom que o Senhor chegou, estamos todos desesperados e não sabemos mais o que fazer, o menino, meu Deus, como posso explicar? - Ela se atrapalhava no discurso e não concatenava as ideais. Preocupado Padre Manfred a interrompeu.

- O que aconteceu Maria, o menino está bem? - Falou esquecendo todo o resto.
- Não sei Padre, ele está desmaiado já faz uma hora. - Ela falou sem qualquer outra explicação.














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